Quarta-feira, 5 de Março de 2008

A IMORTALIDADE DA ALMA 2

Assim, de acordo com Santo Atanásio, O verbo se fez carne para abolir a "corrupção" na natureza humana. No entanto, a morte é vencida, não pelo aparecimento da Vida no corpo mortal, mas sim pela morte voluntária da Vida Encarnada. O Verbo tornou-Se encarnado por conta da morte na carne, enfatiza Santo Atanásio. "Para aceitar a morte Ele tinha um corpo" (c.44) Ou, para citar Tertuliano, forma moriendi causa nascendi est (De carne Christi, 6). A razão definitiva para a morte de Cristo deve ser vista na mortalidade do Homem. Cristo sofreu a morte, mas passou por ela e superou a mortalidade e a corrupção. Ele vivificou a própria morte. "Pela morte Ele destruiu a morte." A morte de Cristo é dessa forma, como se fosse, uma extensão da Encarnação. A morte na Cruz foi efetiva, não como a morte do Único Inocente, mas como a morte do Senhor Encarnado. "Nós precisávamos de um Deus Encarnado, Deus posto à morte, para que pudéssemos viver," para usar uma arrojada e espantosa frase de São Gregório de Nazianzo (Orat. 45, em S. Páscoa, 28; edeithimen Theu sarkomenu ke nekrumenu). Não foi um homem que morreu na Cruz. Em Cristo não havia hipóstase humana. Sua personalidade era Divina, ainda que Encarnada. "Pois Ele Que sofreu não era um homem comum, mas Deus feito homem, e lutando a disputa da persistência," diz São Cirilo de Jerusalém (Catech. 13,6). Pode ser dito apropriadamente que Deus morreu na Cruz, mas em sua própria humanidade (que era, no entanto, "consubstancial" com a nossa). Essa foi a morte voluntária do Um Que era Ele mesmo, Vida Eterna.

Morte humana de fato, morte "de acordo com a humanidade," porém morte dentro da hipóstase do Verbo, do Verbo Encarnado.E daí uma morte ressuscitadora. "Importa porém , que Eu seja batizado com um certo batismo" (Lc. 12:50). Era a morte na Cruz, como um batismo de sangue, — "o batismo de martírio e sangue, com o qual o próprio Cristo também foi batizado," como sugeriu São Gregório de Nazianzo (Orat. 37,17). A morte na Cruz como um batismo de sangue, essa é a própria essência do mistério redimidor da Cruz. O batismo é uma purificação. E o Batismo da Cruz, como se fosse, a purificação da natureza humana, que estava caminhando no caminho da restauração na Hipóstase do Verbo Encarnado. Era, como se fosse, uma lavagem da natureza humana no sangue sacrificial derramado do Cordeiro Divino, e antes de tudo, uma lavagem do corpo; não só uma lavagem dos pecados, mas uma lavagem das enfermidades humanas e da própria mortalidade. Foi a purificação em preparação para a ressurreição vindoura: uma purificação de toda natureza humana, na pessoa de seu "primeiro Nascido," no "Último Adão." Esse foi o batismo de sangue de toda a Igreja, e na verdade do mundo todo. "Uma purificação não para uma pequena parte do mundo dos homens, nem por um curto período, mas para todo o universo e por toda a eternidade," para citar São Gregório de Nazianzo mais uma vez (Orat.45, 13). O Senhor morreu na Cruz. Essa foi uma morte verdadeira. No entanto , não completamente como a nossa, simplesmente porque essa foi a morte do Verbo Encarnado, morte dentro da indivisível Hipóstase do Verbo feito homem, a morte da humanidade "enhipostazada." Isso não altera o caráter ontológico da morte, mas muda seu significado. A "União Hipostática" não foi quebrada ou destruída pela morte, e portanto a alma e o corpo, apesar de separados um do outro, permanecem ainda unidos através da Divindade do Verbo, por Quem eles nunca foram separados. Essa foi uma "morte incorrupta," vai daí, a "corrupção" e a "mortalidade" foram superadas nela, e nela tem início a ressurreição.

A própria morte do Encarnado revela a ressurreição da natureza humana (São João Damasceno, De fide orth., 3.27; cf. homil.em Magn. Saиbat., 29). "Hoje nós festejamos, por nosso Senhor estar pregado na Cruz," na afiada frase de São João Crisóstomo (In crucem et latronem, hom. 1). A morte na Cruz é a Vitória sobre a morte não só porque ela foi seguida pela Ressurreição. Ela, em si, é uma vitória. A Ressurreição só revela e destaca a vitória conseguida na Cruz. Ela já é conquistada no real falecimento do Deus Homem. "Tu morreste e me vivificaste." Como São Gregório de Nazianzo coloca: "Ele entrega Sua vida, mas Ele tem o poder para tomá-la de novo; e o véu é levantado, pois as misteriosas portas do Céu estão abertas; a pedra é rolada, o morto se levanta. Ele morre, mas Ele dá vida, e por Sua morte destrói a morte. Ele é enterrado, mas Ele Se levanta de novo. Ele vai para o Hades, mas Ele traz as almas de lá" (Orat. 41). Esse mistério da Cruz ressuscitadora é comemorado especialmente no Sábado Santo. È o dia da Descida ao Inferno (Hades). E a Descida ao Hades já é a Ressurreição do morto. Pelo próprio fato de Sua morte Cristo Se junta à companhia dos que partiram. É uma nova extensão da Encarnação. O Hades é simplesmente a escuridão e a sombra da morte, mais um lugar de angustia mortal do que um lugar de tormentos penalizantes, um escuro "sheol," um lugar de desesperadora desincorporação e desencarnação, que era só escassa e sombriamente pré-iluminado pelos oblíquos raios do Sol ainda-não-nascido, pela esperança e expectativa ainda não realizadas. Era, como se fosse, uma espécie de enfermidade ontológica da alma, que, na separação pela morte, tinha perdido a faculdade de ser o verdadeiro intelecto de seu próprio corpo, a inutilidade da natureza decaída e ferida. De todo, não um "lugar," mas sim um estado espiritual: "os espíritos em prisão" (1 Pe. 3:19).

Foi nessa "prisão," nesse "Inferno" que o Senhor e Salvador desceu. No meio das trevas da morte pálida brilhou a luz inapagável da Vida, a Divina Vida. A "Descida aos Infernos" é a manifestação da Vida no meio da desesperança da dissolução mortal, é a vitória sobre a morte. "Não foi por qualquer fraqueza do Verbo Que habitava naquele corpo que morreu, mas para que em Sua morte pudesse ser abolida a morte pelo poder do Salvador." diz Santo Atanásio (De inc.26). O Santo Sábado é mais do que a véspera da Páscoa. É o "Sábado Abençoado," "Sanctum Sabbatum" ,requies Sabbati magni, na frase de Santo Ambrosio "Esse é o Sábado Abençoado, esse é o Sábado de descanso, no qual o Filho Unigênito de Deus descansou de todas as suas obras" (Antífona de Vésperas do Sábado Santo, de acordo com o rito Oriental). (...Eu sou o primeiro e o último.E o que vivi e fui morto, mas eis aqui estou vivo para todo o sempre. Amém. E tenho as chaves da morte e do inferno; Apoc. 1:17-18).

A "esperança de imortalidade" Cristã é enraizada nessa e assegurada por essa vitória de Cristo, e não por qualquer doação "natural." E também significa que essa esperança é enraizada num evento histórico, isto é, numa auto-revelação histórica de Deus, e não em qualquer disposição ou constituição estática da natureza humana.

 

O Último Adão.

A realidade da morte ainda não foi abolida, mas sua impotência foi revelada. "É verdade, nós ainda morremos como antes," diz São João Crisóstomo, "mas nós não permanecemos na morte, e isso não é para morrer. O poder e a própria realidade da morte é simplesmente isso, que um homem morto não tem a possibilidade de retornar para a vida; mas se após a morte é para ele ser vivificado e além disso ter uma vida melhor, então isso não é mais morte, mas um adormecer" (In Hebr., hom. 17, 2; u thanatos tuto estin, alla kimisis). Ou na frase de Santo Atanásio, "como a semente posta na terra, nós não perecemos quando morremos, mas tendo sido plantados, nós levantamos" (De inc.,21). Isso foi uma cura e renovação da "natureza humana," e dai para frente todos levantarão, serão postos de pé e restaurados com a totalidade de seu ser natural, ainda que transformados. Dai para frente toda desincorporação não é mais do que temporária. O escuro vale do Hades é abolido pelo poder da Cruz doadora-de-vida. No primeiro Adão a potencialidade inerente da morte por desobediência foi aberta e atualizada. No segundo Adão a potencialidade da imortalidade por pureza e obediência foi sublimada e atualizada na impossibilidade da morte. Esse paralelo já foi descrito por Santo Irineu. À parte a esperança da Ressurreição Geral, a crença em Cristo seria vã e não teria propósito. "Mas agora Cristo ressuscitou dos mortos, e Se tornou as primícias dos que dormem" (1 Co. 15:20). A Ressurreição de Cristo é um novo começo. É uma "nova criação," i keni krisis Pode-se até dizer, um começo escatológico, um passo definitivo na história da Salvação.

E no entanto, nós temos que fazer uma clara distinção entre a cura da natureza e a cura da vontade.A "natureza" é curada e restaurada com uma certa compulsão, pela poderosa força da onipotente e invencível graça de Deus. A integração foi como se fosse, "forçada" sobre a natureza humana. Pois em Cristo toda a natureza humana (a "semente" de Adão) é total e completamente curada da não-integridade e mortalidade.Essa restauração será atualizada e revelada em sua total extensão em tempo oportuno, na Ressurreição Geral, na Ressurreição de todos, tanto dos bons quanto dos maus. E ninguém, quanto à natureza, pode escapar da regra real de Cristo, ou se alienar do invencível poder da Ressurreição. Mas a vontade do homem não pode ser curada da mesma maneira invencível. A vontade do homem deve se voltar para Deus por si mesma. Deve haver uma livre e espontânea resposta de amor e adoração, uma "uma conversão livre." A vontade do homem só pode ser curada no "mistério da liberdade." Somente por esse esforço livre o homem entra na nova e eterna vida que é revelada em Cristo Jesus.

Uma regeneração espiritual pode ser feita somente em perfeita liberdade, em uma obediência de amor, por uma auto-consagração e uma auto-dedicação a Deus, em Cristo. Essa distinção foi feita com grande insistência por Nicolau Cabasilas em seu notável tratado sobre The Life in Christ. A Ressurreição é uma "retificação da natureza" (i anastasis physeos estin epanorthosis) e isso Deus concede livremente. Mas o Reino do Céu, e a visão beatífica, e união com Cristo, pressupõe o desejo (trofi estin tis theliseos), e portanto está disponível somente para aqueles que a esperaram, a amaram e a desejaram. E a imortalidade será dada para todos, assim como todos podem gozar da Divina providência. Não depende da nossa vontade se nós ressuscitaremos ou não depois da morte, assim como não é pela nossa vontade que nós nascemos. A morte e ressurreição de Cristo trazem imortalidade e incorrupção para todos da mesma maneira, porque todos temos a mesma natureza que o Homem Cristo Jesus. Mas ninguém pode ser compelido a desejar. Assim Ressurreição é um dom comum para todos, mas a beatitude será dada somente para poucos (De vita in Christo II, 86-96). E de novo, o caminho da vida é o caminho da renúncia, da mortificação, do auto-sacrifício e auto-oblação. Deve-se morrer para si mesmo para viver em Cristo. Cada um deve pessoal e livremente se associar com Cristo, o Senhor, o Salvador, e o Redimidor, na confissão de fé, na escolha do amor, no místico juramento de fidelidade. Aquele que não morre com Cristo, não pode viver com Ele. "a menos que por nossa própria escolha nós aceitemos morrer em Sua Paixão, Sua vida não estará em nós" (Santo Inácio, Magnes,5; a fraseologia é Paulina).

Essa não é meramente uma regra ascética ou moral, nem meramente disciplina. Essa é a lei antológica da existência espiritual, mesmo a lei da vida em si. Pois somente em comunhão com Deus e através da vida em Cristo a restauração da integridade humana ganha sentido. Para aqueles na escuridão total, que deliberadamente se confinaram "fora de Deus," a Ressurreição em si deve parecer totalmente desnecessária e sem motivo. Mas ela virá, como uma "ressurreição para condenação" (Jo. 5: 29(anastasis tis kriseos)). E nisso se completará a tragédia da liberdade humana. Aqui, nós estamos de fato no limiar do inconcebível e incompreensível. A apokatastasis da natureza não abole a vontade livre, e a vontade deve ser movida de dentro por amor.

São Gregório de Nissa não tinha um claro entendimento disso. Ele antecipou um tipo de conversão universal de almas no depois da vida, quando a Verdade de Deus será revelada e manifestada com a mesma definitiva e compelidora evidência. Justo nesse ponto as limitações da mente Helenista são óbvias. Evidência pareceu para ele ser a razão e motivo decisivos para a vontade como se "pecado" fosse simplesmente "ignorância." A mente Helenista teve que passar por uma longa e dura experiência de ascetismo,de auto-exame ascético e auto-controle, para se libertar dessa ingenuidade e ilusão intelectualísticas, e descobrir o abismo de trevas da alma decaída. Somente em São Máximo, depois de alguns séculos de preparação ascética, nós encontramos uma nova, remodelada e aprofundada interpretação da apokatastasis.

São Máximo não acreditava na inevitável conversão de almas obstinadas. Ele ensinava uma apokatastasis da natureza, isto é, a restituição de todos os seres para uma integridade da natureza, de uma manifestação universal da Vida Divina, que será evidente para todo o mundo. Mas aqueles que tinham deliberadamente passado as suas vidas na terra em desejos carnais, "contra a natureza," serão incapazes de gozar dessa eterna benção. A Luz é o Verbo, que ilumina as mentes naturais dos fiéis; mas como um fogo abrasador de julgamento (ti kavsi tis kriseos), Ele pune aqueles que, pelo amor à carne, se inclinam para as trevas noturnas dessa vida. A diferença é entre uma epignosis, e uma methesis. "Conhecimento" não é o mesmo que "Participação." Deus estará, de fato, em todos, mas só nos Santos Ele estará presente "com graça" (dia tin harin); nos reprovados Ele estará presente "sem graça" (para tin harin). E os maus serão estranhados por Deus pela sua falta de um resoluto "propósito pelo bem." Nós temos aqui a mesma dualidade de natureza e vontade. Na Ressurreição o todo da natureza será restaurado, isto é, trazido para a perfeição e definitiva estabilidade. Mas pecado e mal são enraizados na vontade. A mente Helênica concluiu dai que o mal é instável e por si mesmo deve desaparecer inevitavelmente. Pois nada pode ser perpetuo, a menos que seja enraizado em decreto Divino.

A inferência Cristã é exatamente o oposto. Há a inércia e obstinação da vontade, e essa obstinação pode permanecer incurada mesmo depois da "Restauração universal." Deus nunca comete nenhuma violência contra o homem, e a comunhão com Deus não pode ser forçada aos obstinados. Na frase de São Máximo, "o Espírito não produz uma solução indesejada mas Ele transforma um propósito escolhido em theosis (Quaest. ad Thalass., 6). Nós vivemos em um mundo mudado: ele foi mudado pela Ressurreição redentora de Cristo. Vida foi dada, e prevalecerá. O Senhor Encarnado, na verdade, é um verdadeiro Segundo Adão, e Nele a nova humanidade foi inaugurada. Não só uma "sobrevivência" definitiva é assegurada, mas também o cumprimento do propósito criativo de Deus. O Homem é feito "imortal." Ele não pode cometer um definitivo "suicídio metafísico" e se riscar da existência. Mesmo que ainda com a vitória de Cristo não seja forçada a "Vida Eterna" sobre os seres "fechados." Como diz Santo Agostinho, para a criatura "ser não é a mesma coisa que viver."(De Genesi ad litt. I, 5).

 

E Vida Perene.

Existe uma inevitável tensão na concepção Cristã entre o "dado" e o "esperado." Os Cristãos olham "para a Vida do mundo que virá," mas eles não estão menos conscientes, da Vida que já veio: "pois a Vida foi manifestada, e nós A vimos, e damos testemunha, e mostramos a vós que a Vida eterna, que estava com o Pai, e foi manifestada a nós" (1Jo. 1:2). Essa não é só uma tensão no tempo, — entre o passado, o presente e o futuro. É uma tensão entre destino e decisão. Ou talvez se pudesse dizer: Vida Eterna é oferecida ao Homem, mas ele tem que recebê-la. Para indivíduos, o cumprimento do "destino" depende da "decisão de fé," que não é um "reconhecimento" somente, mas uma "participação" por vontade. A vida Cristã é iniciada com um novo nascimento, pela água e pelo Espírito. E primeiro, é requerido "arrependimento," i metania, uma modificação interna, definitiva e resoluta.

 

O Mistério do Batismo.

O simbolismo do Santo batismo e complexo e múltiplo. Mas acima de tudo é um simbolismo de morte e ressurreição, da morte e ressurreição de Cristo (Ro. 6:3-4). É uma ressurreição sacramental com Cristo, pela participação em Sua morte, e um levantamento com Ele e Nele para uma vida nova e eterna (Col. 2:12; Fil. 3:10). Os Cristãos são corressuscitados com Cristo precisamente através do sepultamento: "pois se nós morrermos com Ele, nós também viveremos com Ele" (2 Ti. 2:11). Cristo é o Segundo Adão, mas os homens devem ser renascidos novos e ser incorporados Nele, para participar da vida nova que é Ele. São Paulo falou de uma "semelhança" com a morte de Cristo (Ro. 6:5, simfyti … to omiomati tu thanatu avtu). Mas essa "semelhança" significa muito mais do que uma parecença. Ela é mais do que um mero sinal ou recordação. O significado dessa semelhança para o próprio São Paulo era que em cada um de nós Cristo pode e deve ser "formado" (Ga. 4:19). Cristo é a Cabeça, todos os fiéis são Seus membros, e Sua vida é atualizada neles. Esse é o mistério do Cristo Todo, — totus Christus,Caput et Corpus. Todos são chamados e cada um é capaz de acreditar, e de ser vivificado pele fé e batismo para assim viver Nele. O batismo é portanto uma "regeneração," uma anagenesis, um nascimento novo, espiritual e carismático. Como Cabasilas diz, Batismo é a causa de uma vida beatífica em Cristo, não meramente uma vida (De Vita in Christo II,95) São Cirilo de Jerusalém explica de uma maneira lúcida a verdadeira realidade do simbolismo batismal. É verdade, ele diz, que na fonte batismal nós morremos (e somos sepultados) somente "em imitação," somente, como se fosse, "simbolicamente," dia symvolu, e não levantamos de um túmulo real. E, no entanto, "se a imitação é uma imagem, a salvação é em verdade real." Pois Cristo foi verdadeiramente crucificado e sepultado, e realmente ressuscitou do túmulo. A palavra grega é ondos. É até mais forte do que simplesmente alithos, "em verdade real." Ela enfatiza o significado definitivo da morte e ressurreição de Cristo. Foi uma nova conquista. Dai para frente Ele deu a nós a chance, por participação "imitativa" na Sua Paixão (ti mimisi … kinonisandes), adquirir salvação "na realidade." Não é somente uma "imitação" mas uma "similitude," to omioma. "Cristo foi crucificado e sepultado na realidade, mas a ti é dado ser crucificado, sepultado e ressuscitado com Ele em similitude." Em outras palavras, no batismo o homem desce "sacramentalmente" nas trevas da morte, e ainda com o Senhor Ressuscitado ele ressuscita e cruza da morte para a vida. E a imagem é completada toda em ti, pois tu és uma imagem de Cristo," conclui São Cirilo. Em outras palavras, tudo é mantido por e em Cristo; dai a possibilidade real de uma "parecença" sacramental (Mystag. 2.4-5, 7; 3.1).

São Gregório de Nissa fica no mesmo ponto. Há dois aspectos no batismo. Batismo é um nascimento e uma morte. O nascimento natural é o início de uma existência mortal, que se inicia e termina em corrupção. Outro, um novo nascimento, tem que ser descoberto, o que iniciaria a vida perene. No batismo "a presença de um poder Divino transforma o que nasceu com uma natureza corruptível num estado de incorrupção" (Orat.cat.,33). Ele transforma através de seguimento e imitação; e assim o que foi previsto pelo Senhor é realizado. Somente seguindo atrás de Cristo se pode passar pelo labirinto da vida e sair dele. "Pois eu chamo de labirinto, a inescapável guarda da morte, na qual a triste humanidade está aprisionada." Cristo escapou disso depois de três dias de morto. Na fonte batismal "a imitação de tudo que Ele fez é realizada." A morte é representada pelo elemento água. E como Cristo ressuscitou novamente para a vida, assim também o recém batizado, unido com Ele em natureza corporal, "imita a ressurreição no terceiro dia." Isso é simplesmente uma "imitação," mimisis, e não "identidade." No batismo o homem não é, realmente, ressuscitado, mas somente libertado do mal natural e da inescapabilidade da morte. Nele a "continuidade do vicio" é cortada. Ele não é ressuscitado porque ele não morre, mas permanece ainda nessa vida. O batismo somente prevê a ressurreição; no batismo se antecipa a graça da ressurreição final. Batismo é o começo, ahri, e a ressurreição é o fim e consumação, peras; e tudo que acontece na grande Ressurreição já têm o seu começo e causas no batismo. Pode-se dizer que o batismo é uma "Ressurreição Homiomática" (Orat.cat., 35). Deve ser mostrado que São Gregório enfatizou especialmente a necessidade de manter e segurar apertada a graça batismal. Pois no batismo não é somente a natureza, mas a vontade também, que são transformadas e transfiguradas, permanecendo livres dai para frente. E se a alma não é limpa e purificada no exercício da livre vontade, o batismo se torna infrutífero. A trans figuração não é realizada, a nova vida não é ainda consumada. Isso não subordina a graça batismal à licença humana. A Graça na verdade desce.

Porém ela não pode ser forçada sobre ninguém que é livre e feito à imagem de Deus: ela tem que ser respondida e corroborada pela sinergia do amor e vontade. A Graça não vivifica e anima as almas fechadas e obstinadas, as "almas mortas" de fato. Resposta e cooperação são requeridas (c., 4). Isso é assim porque o batismo é uma morte sacramental com Cristo, uma participação em Sua morte voluntária, em Seu amor sacrificial; e isso só pode ser realizado em liberdade. Assim no batismo a morte de Cristo na Cruz é refletida ou retratada em uma imagem viva e sacramental. O batismo é, ao mesmo tempo, uma morte e um nascimento, um enterro e um "banho de regeneração," lutron tis palingenesias: "um tempo de morte e um tempo de nascimento," para citar São Cirilo de Jerusalém (Mistag. II, 4).

 

O Mistério da Comunhão.

O mesmo é verdade em todos os sacramentos. Todos os sacramentos foram instituídos para capacitar o fiel "a participar" na morte redentora de Cristo e por ai ganhar a graça de Sua ressurreição. Nos sacramentos, o caráter único e universal da vitória e sacrifício de Cristo é trazido e enfatizado. Essa foi a idéia principal de Nicolas Cabasilas em seu tratado On the Life in Christ, no qual toda doutrina sacramental da Igreja Oriental foi admiravelmente sumarizada. "Nós somos batizados justamente para morrer por Sua morte e ressuscitar em Sua Ressurreição. Nós somos ungidos com o crisma para que possamos participar de Sua unção real de deificação (theosis). E quando nós somos alimentados com o mais sagrado Pão e bebemos do mais Divino Cálice, nós participamos da mesma carne e mesmo sangue que nosso Senhor assumiu, e assim nós somos unidos com Ele, Que por nós encarnou, e morreu, e ressuscitou de novo...Batismo é um nascimento, e o Crisma é a causa de atos e movimentos, e o Pão da vida e o Cálice de agradecimento, são a verdadeira comida e a verdadeira bebida" (De vita II, 3, 4, 6, etc.)

No todo da vida sacramental da Igreja a Cruz e a Ressurreição são "imitadas" e refletidas em variados símbolos. Todo esse simbolismo é realístico. Os símbolos não nos lembram simplesmente de alguma coisa do passado, alguma coisa que já passou. O que teve lugar "no passado" foi o início do "Perene." Sob todos esses "símbolos" sagrados, e neles, a Realidade definitiva é verdadeiramente aberta e transferida. Esse simbolismo hierático culmina no augusto mistério do Santo Altar. A Eucaristia é o coração da Igreja, o sacramento da Redenção em um sentido eminente. é mais do que uma "imitação," ou do que uma simples "comemoração." É a própria Realidade, ao mesmo tempo velada e aberta no Sacramento. É o "Sacramento perfeito e definitivo" (to televteon mystirion), como Cabasilas diz, "e não se pode ir além, e não há nada que possa ser acrescentado." É o "limite da vida," zois to peras. "Depois da Eucaristia não há nada mais para se esperar, mas devemos permanecer aqui e aprender a preservar esse tesouro até o fim" (De vita IV, i, 4, 15). A Eucaristia é a própria Última Ceia, efetuada, como se fosse, de novo e de novo, e, no entanto, não repetida. Pois cada nova celebração não só "representa," mas verdadeiramente é a mesma "Mística Ceia" que foi celebrada a primeira vez (e para sempre) pelo Divino Sumo Sacerdote, Ele próprio,como uma antecipação e iniciação voluntárias do Sacrifício da Cruz. E o verdadeiro Celebrante de cada Eucaristia é sempre o próprio Cristo.

São João Crisóstomo era bastante enfático nesse ponto. "Creiam, portanto, que mesmo agora, é aquela Ceia, na qual Ele próprio Se sentou. Pois essa não é diferente, em nenhum aspecto, daquela" (In Matt., hom. 50,3). "Ele Que fez essas coisas naquela Ceia, Esse mesmo agora também trabalha nelas. Nós temos o cargo de ministros. Ele Que santificou e mudou as coisas é o Mesmo. Essa mesa é a mesma que aquela, e não tem nada de menos. Pois não é que Cristo lavrou aquela, e o homem essa, mas Ele lavra essa também. Essa é aquela Câmara Superior, onde eles estavam então" (Ibid, hom. 82, 5). Tudo isso é de importância fundamental. A Última Ceia foi um oferecimento de sacrifício, do sacrifício da Cruz. O sacrifício ainda é continuado. Cristo ainda está agindo como Sumo Sacerdote em Sua Igreja. O Mistério é todo o mesmo, e o Sacerdote é o mesmo, e a Mesa é uma. Para citar Cabasilas mais uma vez: "Oferecendo-Se e Se sacrificando de uma vez por todas, Ele não cessou o Seu Sacerdócio, mas Ele exerce esse ministério perpétuo por nós, no qual Ele é nosso Advogado junto a Deus para sempre" (Explan. div. liturg., c. 23). E o poder e significância ressurrecional da morte de Cristo são manifestados totalmente na Eucaristia.

É "a medicina da imortalidade e um antídoto para que nós possamos não morrer mas viver para sempre em Jesus Cristo," para citar a famosa frase de Santo Inácio (Efe., 20.2: farmakon athanasias, antidotos tu mi apothanin, alla zin en Iisu Hristo). É "o Pão celeste e o Cálice da Vida." Esse tremendo Sacramento é para o fiel o próprio "Noivado com a Vida Eterna," justo porque a morte de Cristo em si foi a Vitória e a Ressurreição. Na Eucaristia o começo e o fim estão ligados: as memórias do Evangelho e as profecias do Apocalipse. É um sacramentum futuri porque é uma anamnesis da Cruz. A Eucaristia é uma antecipação sacramental, um pré-sabor da Ressurreição, uma "imagem da Ressurreição" (o typos tis anastaseos, — a frase é da oração consagracional de São Basílio). Não é mais do que uma "imagem," não porque é um simples sinal, mas porque a história da salvação ainda continua, e nós temos que olhar para frente, "para ver a vida do tempo que virá."

 

Conclusão.

Cristãos, como Cristãos, não são comprometidos com nenhuma doutrina filosófica de imortalidade. Mas estão comprometidos com a crença na Ressurreição Geral. O Homem é uma criatura. Sua própria existência é concessão de Deus. Sua própria existência é contingente. Ele existe pela graça de Deus. Mas Deus criou o Homem para existência, isto é, para um destino eterno. Esse destino pode ser conquistado e consumado só em comunhão com Deus. Uma comunhão rompida frustra a existência humana, e ainda assim o Homem não deixa de existir. A morte e mortalidade do Homem é o sinal da comunhão rompida, o sinal do isolamento do homem, de seu estranhamento da fonte e meta de sua existência. E ainda assim o fiat criativo continua a operar. Na Encarnação a comunhão é restaurada. A Vida é manifestada nova na sombra da morte. A Encarnação é a Vida e a Ressurreição. O Encarnado é o conquistador da morte e do Hades. E Ele é a Primícia da Nova criação, a Primícia de todos que dormem. A morte física dos homens não é simplesmente um irrelevante "fenômeno natural," e sim um sinal ignominioso da tragédia original. Uma "imortalidade" de "almas" desencorpadas não resolveria o problema humano. E "imortalidade" em um mundo sem-Deus, uma "imortalidade" sem Deus ou "fora de Deus," seria uma eterna condenação. Cristãos, como Cristãos, aspiram a algo maior que a imortalidade "natural." Eles aspiram por uma comunhão perene com Deus, ou, para usar a espantosa frase dos primeiros Padres, por uma theosis.

Não há nada "naturalístico" ou panteísta no termo. Theosis significa não mais do que uma íntima comunhão das pessoas humanas com o Deus Vivo. Estar com Deus significa morar Nele e partilhar de Sua perfeição. "Então o Filho de Deus tornou-Se o filho do homem, para que o homem também pudesse se tornar o filho de Deus" (Santo Irineu, Adv. haeres. III, 10.2). Nele o homem está para sempre unido com Deus. Nele nós temos Vida Eterna. "Mas todos nós, com cara descoberta, refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor" (2 Co. 3: 18). E, no fim, para toda criação o "Santo Sábado," o próprio "Dia do descanso," o misterioso "Sétimo Dia da criação," será inaugurado , na Ressurreição Geral,e no "Mundo que virá."

 

publicado por igrejacatolicaortodoxa às 14:02
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